Waldemar, eu não sou doente

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Waldemar, eu não sou doente. Numa rápida googlada, a internet me diz que doença é uma alteração na saúde de um ser e que se manifesta por um conjunto de sintomas. Eu não sinto dores Waldemar. Não sinto fisgadas no peito, não sinto tonturas, não sinto dores de dente, tampouco perco o sono à noite. Às vezes sinto dores nas pernas, mas é porque eu caminho demais e sempre uso escadas ao invés de elevador.

Então, Waldemar, eu não sou doente. Isso, que existe dentro de mim, e que tu diz que pode ser curado, revertido, não é uma doença. Não é um mal estar, não é um mal súbito, não é uma condição. É uma existência, é a minha existência. E para a minha existência não há cura. Para a minha existência há apenas o direito de sua plenitude. Para a minha existência, Waldemar, há apenas o mesmo direito que cabe à sua, o simples direito de ser. O simples direito de ser o que ela é: a minha essência.

Simples direito que é tudo, menos simples. Imagine Waldemar, se você tivesse um nariz muito grande ou muito pequeno, se tivesse um olhar muito atento ou muito distraído, se você sentisse muita ou nenhuma vontade de rir. Imagine, Waldemar, se algum desconhecido qualquer viesse bradar, entre marteladas e dedos apontados, que o teu nariz, fosse ele muito grande ou muito pequeno é uma doença. Que o teu olhar é uma doença. Que tuas sensações são uma doença. Todas essas coisas, tão parte de ti, tão formadoras de ti, tão você, vistas como uma alteração na tua saúde. A tua essência vista como um sintoma. A tua existência como uma anomalia.

Mas agora esqueça os exemplos bobos Waldemar, se atenha a imaginar pessoas dizendo que tudo o que tu é, é uma doença. Imagine teus pais lhe pegando pela mão e te levando para algum consultório qualquer, habitado por uma pessoa que vai lhe sentenciar, lhe diagnosticar como o Distúrbio de Waldemar. Condenando tudo aquilo que tu és, tudo o que tu viu com um olhar tão particular, tudo o que tu acreditou de uma maneira tão tua, tudo o que tu sentiu com uma particularidade tão única ser condenado à condição de anomalia, de coisa que não deveria estar ali. Imagine Waldemar, as tuas lutas, as tuas esperanças, os teus sonhos, o teu falar, o teu caminhar, o teu amar ser diagnosticado. Ser tratado. Ser curado.

Não Waldemar, eu não sou doente. E acho que posso falar que meu namorado também não é. Que as minhas amigas e as amigas dele, que os meus amigos e os amigos dele também não são. Eles não estão assim, não estão se sentindo assim. Eles são assim. Eu sou assim. Eu não fui ensinado a ser assim, eu mesmo. Não fui influenciado por ninguém a ser eu mesmo. Nasci assim, vivo assim, e morrerei assim, desse jeito, tão meu, tão eu, tão viado.

Eu não sou uma gripe para ser curado, Waldemar. E embora você e os outros tantos Waldemar peçam de joelhos que eu deixe de existir, eu continuo existindo. E existo assim. Beijando a boca de outros homens. Sentindo afeto por outros homens. Existo assim: viado. Bem viado. Muito viado. Saudavelmente viado. Uma existência saudável que olha para a outra, e mais aquela outra, e outras tantas, que existem por todos os lados, de todas as formas, de todos os gestos, e cheiros e sensações, com o mesmo respeito. O mesmo mínimo respeito que a minha existência (que gente como tu torna tão tortuosa) me ensinou a ter.

Eu não sou doente Waldemar. Eu sou diferente. Diferente de ti e de todos os outros, que por sua vez são diferentes dos outros outros, todos tão diferentes entre si, todos tão diferentes de você e de mim. Isso faz desses tantos outros doentes, Waldemar? Claro que não. Isso faz de ti um doente, Waldemar? Óbvio que não. Tu não é doente. É preconceituoso, mas não doente.

Eu não sou doente, Waldemar. Eu não preciso de um tratamento, ou de uma cura. Eu só preciso de respeito. Eu só preciso sentir o que quero sentir, amar quem eu amo, ser quem eu sou e ser respeitado por isso. O mundo é assim, Waldemar. As pessoas não precisam ser curadas, elas precisam ser respeitadas.

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