Uma tempestade está vindo, seu Brasil

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Está sentindo, seu Brasil? É um cheiro de chuva, de chuva muito forte. Cheiro de vidas sacudidas, de dias escuros. Está sentindo, seu Brasil? O vento, esse que vem do norte, e do sul também. Ele é frio. Frio como os passados dos quais não queremos lembrar. Tem uma tempestade vindo, seu Brasil. Ela está vindo há um bom tempo, é bem verdade, mas agora já se pode enxergar as nuvens carregadas para cá da linha do horizonte. Agora podemos ver os redemoinhos na rua, agora podemos sentir os respingos pouco a pouco caindo sobre nós, eu você, seu Brasil.

É uma coisa curiosa não? A tempestade vem, enxarca, destroi, arrasta e afoga, leva tudo por diante. E ali, no meio da destruição, no meio daquela dor da perda de tudo, as pessoas prometem, as pessoas se prometem, que estarão preparadas para a próxima, algumas até prometem que não haverá uma próxima. Mas quando vemos, as nuvens agourentas já se avizinham novamente, trazendo tudo do mesmo jeito. Não importa o tempo que passe, vem tudo do mesmo jeito. O vento traz as palavras velhas, os conceitos velhos. As nuvens vêm carregadas das velhas ações, dos pensamentos muito engessados de tão velhos que são. E mesmo que pairem sobre um mundo muito diferente do anterior que destruiu, a tempestade cai da mesma forma, o vento sopra da mesma forma. Seria, se Brasil, um mundo assim tão diferente?

Não sei, acho que o senhor não sabe também, somos tão jovens, afinal. Mas uma coisa eu sei: tem uma tempestade vindo. Ah, isso eu sei que tem. E eu digo para o senhor, seu Brasil, que devemos nos proteger. Embora muitas pessoas vociferem que não. Porque sim, elas vociferam. Elas não falam, elas não gritam, muito menos conversam. Elas vociferam. Porque elas têm um ódio dentro de si, um ódio tão profundo que vez ou outra passa despercebido, tão enraizado que já é quase natural. Tomam no café com bolacha torrada. Tomam com cerveja no happy hour. É um ódio teleguiado, é claro. Determinado e direto, quase como uma prescrição médica. E essas pessoas que odeiam, seu Brasil, na sua alinhada concepção de mundo, a tempestade vem para limpar, não para destruir. Na sua alinhada concepção de mundo a tempestade vem muito justa, afogando apenas aqueles merecem ser afogados. Sabe aquele perfil que polui, seu Brasil? Aquele perfil que mora mais distante, que tem a pele mais escura, que beija mulher quando é mulher e beija homem quando é homem, que beija mulher e homem ou que simplesmente não quer ser definido nem como mulher nem como homem, ou ainda como os dois. Sabe, seu Brasil? Aquele perfil que faz barulho, que lota os ônibus, que se veste mal, que cheira mal. Aquele perfil que fica remexendo as feridas, secas de tão velhas. O nosso perfil, seu Brasil.

A sujeira da rua. Para eles, nós somos a sujeira da rua. Portanto, o nosso lugar é no meio-fio, arrastados pela correnteza, engolidos pelo escuro dos bueiros, bem longe da vista de tudo e de todos. A tempestade viria e limparia tudo. Adeus coisas tortas! Voltem para o escuro da inexistência de onde vocês nunca deveriam ter saído. Voltem para lá, com suas ideias de liberdade, com a sua baboseira sobre direitos, com o vexame de sua nudez! Voltem!

Então eu bato o pé, seu Brasil. E digo, e digo mais uma vez, que essa tempestade é uma limpeza. E que isso é absurdo. Todo o absurdo de não aceitar e de não (querer) entender que o mundo hoje é diferente; o absurdo de que todos engulam suas crenças há muito envelhecidas (ou pior, a concepção muitas vezes míope de suas crenças há muito envelhecidas); o absurdo de que o mundo é seu, e que ele deve ser à sua maneira, por alinhada e excludente que ela seja; o absurdo da sua certeza firme de que qualquer exigência, por mínima que seja, é querer demais, é quer ser privilegiado demais. Não podemos querer, muito menos exigir mais respeito, mais dignidade, seu Brasil. Gritamos, e eles enraivecidos vociferam de volta, com o seu arsenal de moralismos, sempre embebidos da mais pura hipocrisia, detentores de todas as verdades e certezas da Humanidade. Dizem, seu Brasil, que já estamos em uma tempestade que levou tudo o que é correto. Foi- se o respeito, foi-se a moral, foi-se o trabalho, foi-se a família. E encontram, na voz de alarmados e oportunistas meteorologistas o eco de seus desejos mais íntimos, do seu medo mais genuíno de perder espaço para aquilo que é diferente de si. Esses meteorologistas pouco ou nada sabem sobre o tempo, eles sabem mesmo é da manutenção das engrenagens de uma sociedade que só é bem sucedida se for limpa. E pode ter a certeza, seu Brasil, que de limpeza eles entendem. De oportunismo mais ainda. Isso eles comem no almoço, com lasanha de camarão.

Mas o que me preocupa mesmo, seu Brasil, são os ordinários, os nós. Os nossos vizinhos, os nossos amigos do colégio, os transeuntes que tropeçam na gente no centro da cidade. Esses que, assim como eu e você, foram ensinados diuturnamente a odiar, a não aceitar ou entender ao mesmo que (e isso é muito curioso) eram ensinados que o país onde cresciam era um país feliz, receptivo, caloroso, miscigenado, amável e democrático. Os ordinários, seu Brasil, eles não vociferam, às vezes ao menos sussurram e suas trajetórias nos escapam das mãos, das vistas, porquê são como as nossas. Os ordinários sopram, induzidos e induzindo, e seu sopro leve se soma a outros, e se soma mais um pouco, até que as nuvens começam a se formar e comece tudo novamente. O vento criando redemoinhos nas calçadas, batendo a porta dos museus, arrastando divindades meticulosamente selecionadas para dentro das escolas, curando pessoas que não são doentes, levantando as roupas expondo a nudez e tudo mais do seu devido lugar, para que se crie a sensação de que aqui só há o caos.

Pegue um guarda-chuva, seu Brasil, pois uma tempestade está vindo. E é das fortes.

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