Samba na terça

Rede Social

Ai, arde no peito!

Queira entender o teu segredo

Queira pousar em teu destino

E depois morrer de teu amor…

O som ecoa pelo ar naquele momento que não é nem dia nem noite, quando o tempo parece estar parado, aconchegado em um descanso. As luzes são laranjas: o laranja das lâmpadas confinadas nos globos muito antigos que iluminam a escadaria da Borges de Medeiros e o laranja dos letreiros dos ônibus, difíceis de ler enquanto vêm e vão velozes na avenida lá embaixo.

É terça-feira. A semana recém começou e a rotina já mastiga faminta o seu alimento preferido (nós). Nesse fluxo recém iniciado, o samba da terça-feira no Tutti Giorni, encaixado discretamente no passeio de Outono da escadaria da Borges de Medeiros, é como um energético que vai nos ajudar a seguir em frente na semana. Uma ilha de fuga no centro da cidade e no meio da correria das nossas agendas que transbordam de compromisso e esquecimentos. Um grito de socorro em uma cidade abandonada pelas pessoas (pelas suas pessoas). Um standby embalado por Serramalte e recheado de panini (massa caseira, sabor calabresa e alho-poró com ricota, uma delícia) que nos ajuda a parar, sentar, descansar, esquecer e aproveitar o tempo.

O tempo ali se dilata, demora a passar, não escorre desesperado por entre nossos dedos. Ele senta ao nosso lado, parecendo esquecer do seu dever primordial de correr. E entre um samba e outro, entre um copo de Serramalte e outro, entre um panini e outro, nós também esquecemos do dever que nos foi determinado como primordial: correr contra o tempo, não vendo nada que nos cerca, vivendo muitas coisas enquanto aproveitamos tão poucas.

Ai, mas quem virá?

Me pergunto a toda hora

E a resposta é o silêncio

Que atravessa a madrugada

É uma pena que nem todo mundo possa se dar ao luxo de dar uma fugidinha da “vida real”, de sentar ao lado dos amigos e do tempo, em plena terça-feira, e tomar uns gorós. O tempo não trabalha sozinho. Ele comanda nossas vidas de mãos dadas com o transporte público (ineficiente) e com o medo de estar na rua (eficiente). Ele também tem uma parceria duradoura com a desigualdade, que nos arrasta para longe, para os cantos da cidade, longe do centro e de qualquer esboço de descanso ou mesmo de vontade de descanso em um lugar que não seja as nossas próprias quatro paredes. Um combo de capitalismo que transforma nossos dias em linhas de produção rigidamente organizadas.

Vem, meu novo amor

Vou deixar a casa aberta

Já escuto os teus passos

Procurando meu abrigo…

É justamente por isso que eu peço: pense com carinho. Dê uma chance para o samba de terça do Tutti Giorni. Desligue as máquinas, apague as luzes e suba os degraus do passeio de Outono da escadaria da Borges. Ali você vai encontrar o tempo de gente mais nova e gente mais velha, de gente careca e gente grisalha, gente preta e gente branca (mais branca do que preta, deve-se notar) esparramado sobre tudo, meio zonzo e cantarolando uma porção de sambas desconhecidos que todo mundo conhece.

Ali, desliga-se do mundo no meio do mundo. Ali, se descansa no meio do cansaço, ignorando isso e todo o resto (o resto que é ruim, que torna nossos dias maçantes, nossas vidas incertas, nossas existências incompletas ou inadequadas).

Vai chegar então aquele momento (exatamente às 21h, horário teto de som alto determinado por alguma secretaria municipal que não lembro qual) que o tempo vai se dar conta de que as luzes dos prédios ao redor já começaram a acender, iluminando a noite já caída. Ele vai se recompor e sussurrar no ouvido de cada um que é terça-feira. Na borda da noite e no parapeito da escadaria, a nossa agenda se abre agourenta. Alguns vão se recompor, tomar o último gole de Serramalte, morder os últimos nacos de panini e dar as mãos para o tempo, descendo ou subindo a escadaria rumo ao resto da semana com um fôlego a mais. Outros tantos vão permanecer ali. O tempo pode esperar mais um pouco. A barriga da rotina ronca de fome. Que ronque!

O samba termina mas a Serramalte e os panini continuam. O Tutti Giorni permanece ali, barato, meio sujo e com banheiros sem especificação de gênero, enquanto “Pressentimento” ecoa pelo centro de Porto Alegre, louca pra pousar ali novamente, na terça-feira da próxima semana.

Vem, que o sol raiou

Os jardins estão florindo

Tudo faz pressentimento

Que este é o tempo ansiado

De se ter felicidade…

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