João Sem Medo e Libertadores

Rede Social

* Por Marcelo Rocha

Poucos escritores brasileiros foram capazes de captar a natureza épica do futebol quanto Nelson Rodrigues. Armando Nogueira lembrava que Nelson não enxergava bem e, no Maracanã, precisava de alguém a soprar-lhe os lances que lhe escapavam à visão. No entanto, ele via além.

Talvez a partida, em sua fria estatística, não tivesse tanta importância. Para Nelson Rodrigues, o relevante era “o sobrenatural de Almeida” ou tudo aquilo que ultrapassasse a prancheta e apaixonasse o torcedor.

Nelson encontrava metafísica em um Flamengo x Canto do Rio. Nesse sentido, quando escreve, em 1969, sobre o início da campanha que iria consagrar a Seleção Brasileira no ano seguinte, ele tece, ao seu estilo, uma narrativa curiosa. O cronista descreve um vizinho que tivera na infância. O rapaz era um santo que nunca havia praticado má ação: “Admira que não andasse com um passarinho em cada ombro”.

Certo dia, o sujeito casou-se. A esposa não aguentou tamanha bondade e disparou: “Eu queria um marido, não um santo. Arranjas um defeito ou me separo.” A união não durou muito. A virtude destruira o casamento.

A pitoresca história serve de introdução ao temperamento do técnico João Saldanha, que comandou o Brasil nas Eliminatórias da Copa de 70. Para Nelson, Saldanha – o “João Sem Medo” – não tinha as virtudes para um bom técnico, mas os defeitos necessários. E ressaltava: defeitos luminosíssimos.

O primeiro e mais importante era o de João ser furioso. Uma Copa não se ganharia com bonzinhos, seria preciso cuspir fogo, como dragão de São Jorge. “Uma Copa do Mundo é uma selva de gangsteres”, bradava Nelson.

No entanto, o destemido alegretense foi dispensado da Seleção antes do Mundial. Segundo o treinador, a sua retirada deu-se por ter recusado a interferência do presidente da ditadura, Emílio Garrastazu Médici, na convocação. O técnico disse: “Eu não escalo ministério, nem ele escala meu time”.

Na Libertadores deste ano, o Grêmio precisa do espírito sanguíneo de João Saldanha. É evidente que uma taça desta importância se vence com qualidade – sobretudo com atacantes e meias que façam gols – mas é preciso mais. É preciso que os adversários sintam um Grêmio irresignado, guerreiro e furioso, tal como o João Sem Medo, e aí, quem sabe poderemos começar a sonhar com o Mundial. Por que não?

 

  • Doutor em Letras e Prof. da Unipampa/São Borja fala da captação épica do futebol de Nelson Rodrigues

Texto publicado no Clic RBS, no Gaúcha ZH. Esportes

 

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