SOBRE DARCI, PASSADO, PRESENTE E FUTURO

Rede Social

 

A história da escola de samba Unidos dos Canudos atravessa a história da minha família. Desde pequeno eu ouço a história da criação da escola, nascida de um churrasco de amigos inquietos, apaixonados por futebol e carnaval. Um desses inquietos era meu avô, Darci Cruz, figura única na história da cultura popular de Alegrete, dono de um peculiar talento de unir as pessoas, dono de um particular fascínio por todos aqueles que eram marginais, filhos das nossas vilas, da nossa pobreza.

Foi especialmente em meu avô que pensei ontem, ao receber o Troféu Zumbi, distinção gentilmente cedida pela escola àqueles que de diferentes maneiras contribuíram para a cultura afro-brasileira de Alegrete. Pensei nele e na sua luta, na sua resistência de pessoa negra, fruto de um lugar negro, ao criar uma escola de samba. Eu não sei se ele de fato tinha essa visão em mente quando, ao lado de amigos, criou a Unidos dos Canudos. Mas não há como negar a importância disso como um ato de resistência, de lembrete de existência.

Humildemente, tenho a certeza de que os meus 24 anos não me deram tempo suficiente para que eu pudesse fazer mais pela minha raça e pela cultura dela. Mas recebi a homenagem com alegria em razão do caminho pavimentado por meu avô e com a esperança de que no futuro eu possa fazer tanto quanto ele fez. Recebo o Troféu Zumbi não com a sensação de dever cumprido, mas com a sensação (e a certeza) de que tenho muito mais a fazer.

Em tempos de ataque à cultura e de MBL querendo nos ditar o que é e o que não é arte, mais do que nunca é importante lembrar a potência de espaços de grande integração popular, como os times de futebol e as escolas de samba, para a realização das discussões tão necessárias sobre o nosso futuro, sobre a nossa política, sobre as nossas relações sociais e raciais.

Singelamente agradeço à Unidos dos Canudos pelo carinho; à minha mãe por me ensinar o amor por carnaval e por tudo o que ele significa – além do desfile na avenida; ao Marcelo e à Jéssica por estarem sempre do meu ladinho, me inspirando com
tanto carinho; à Rudileia e ao Paulo por serem pessoas que me impulsionam me fazendo lembrar que nunca é tempo de descansar ou se acomodar – a luta é constante; e a meu avô, por ser essa figura que mesmo ausente fisicamente há quase dez anos, se mostra muito presente em minha história, na história de nossa cidade, de nossa escola, de nossa família.

Vô, a tua voz marginal ecoa no nosso passado, no nosso presente e vai continuar ecoando no nosso futuro. Salve!

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