Carta aberta a Rafael

Rede Social

Oi, mano.
Faz muito tempo que eu quero te falar isso, mas não sabia direito como fazer. Eu nunca fui bom
falando, sempre fui melhor escrevendo. Falando eu esqueço das coisas, me atropelo no pensamento e
acabo esquecendo muitas coisas importantes. Escrever é ainda mais difícil, mas ainda assim eu me saio
um pouco melhor. Por isso te escrevo essa carta. Que não é só pra ti, mas pra todo mundo que é assim,
jovem como tu, e que logo vai começar a ser tensionado pelo mundo que nos cerca.
Esse ano tu completa 18 anos. Eu lembro do dia em que tu veio pra casa, era um dia quente. A
casa da vó ainda era de madeira, uma madeira de um verde-escuro, cor de musgo. Tu não lembra disso,
obviamente. Assim como tu não lembra das mudanças que o mundo ao nosso redor passou. A nossa rua
está diferente, a nossa cidade está diferente, o nosso país está diferente. Muitas coisas mudaram pra
melhor, algumas pra pior, outras simplesmente continuaram como sempre foram. Mas não estou aqui pra
falar do passado, mesmo que ele seja tão importante e defina tantas coisas que fazem parte de nossas
vidas. A minha preocupação é com o futuro, que se aproxima tão rápido que quando vemos, num piscar
de olhos, ele já é passado. A minha preocupação é com o futuro, o teu, o meu, o nosso, o de nossos
amigos, de nossos familiares. Um futuro que se aproxima cheio de discursos perigosos e intenções
duvidosas.
Me permita usar um tom alarmado, até porque a situação é alarmante. As coisas no Brasil não vão
bem, tu sabe. A nossa economia ainda não se recuperou da crise, a violência anda muito em alta, o
desemprego é representado por números enormes. Embora tudo isso que é falado nos jornais pareça tão
distante, as decisões e mudanças sempre chegam até nós, sempre da pior forma. Sabe por que eu acho que
as coisas no Brasil dificilmente mudam? Justamente porque as pessoas acham que é tudo muito distante,
que não lhes diz respeito. Por isso é perigoso dizer que não se gosta de falar de política. Ora, tudo é
política. Não tem como fugir da política. Ir ao colégio e ter ou não ter aula é política – as pessoas não
fazem greve porque querem, mas sim porque precisam, afinal, elas não estão recebendo. Comprar uma
roupa e um tênis na Mandrake é política – o preço que pagamos por nossas coisas, desde o pacote de
arroz que tu faz no almoço até a casa que sonhamos são definidos por políticas. Atravessar a rua e ir à
UPA por estar com o braço é deslocado é política – as condições para que tu seja bem atendido dependem
de equipamentos, pessoas e nem um nem outro é possível ter, com qualidade, se não há investimentos. A
política, embora não pareça, está em cada um dos nossos passos. Não estamos sozinhos no país. As
nossas decisões nunca são só nossas, elas dependem de muitas coisas que vão além de nós mesmos. Uma
dessas coisas sempre é a política.
Por exemplo, trabalhar. As reformas que tanto falam na televisão, da previdência e a trabalhista,
são coisas que vão mudar muito as relações de trabalho. Não só as relações de trabalho dos outros, mas as
nossas também. As minhas, as da mãe, as tuas, quando tu for trabalhar. Se aposentar? Vamos ter que ralar
mais, muito mais se, no futuro, quisermos nos aposentar. Vai ser difícil mas ainda possível. Já sobre ter
um trabalho com condições mínimas de dignidade não podemos dizer o mesmo. Essa história de
negociação com o chefe é bobagem. Precisamos usar aspas nesse caso: “negociação”. Os chefes, os donos
de mercados, de lojas, farmácias, de qualquer empresa que seja, estão preocupados com o lucro e não com
seus funcionários. A realidade é essa. Não existe negociação, existe só a decisão. E não é a nossa.
Ano passado, junto com alguns colegas, eu ocupei a faculdade onde estudo, como tantos outros
estudantes de tantas outras faculdades em todo o Brasil. O motivo? Tentar, pelo menos tentar, barrar a
proposta que congelaria os investimentos em educação e saúde pelos próximos vinte anos. Vinte anos.
Isso é mais tempo do que tu tem de vida. A proposta foi aprovada e nos próximos vinte anos os gastos
terão um teto, um limite. O governo vai poder repassar um determinado valor para os gastos com
educação e saúde e não vai poder passar daquilo. Quando isso acabar, tu terá 38 anos. Eu, 44. A mãe, 78.
Nesse meio tempo, as escolas e as universidades vão ser sucateadas – imagine a tua escola, que já é
sucateada, vai ficar ainda pior. A saúde pública, que já é tão problemática, vai ficar ainda pior. As filas
vão aumentar, as condições de quem não tem como utilizar médico particular vão ficar ainda mais
precárias.
Só nesses três exemplos – trabalho, educação e saúde – tu já pode perceber como as decisões
tomadas tão distantes de nós, lá em Brasília, podem nos afetar diretamente. E elas afetam. Pois por mais
sem sentido que pareça ser, é evidente que essas decisões atingem principalmente as pessoas pobres, em
sua grande maioria negra, muitas delas criadas como eu e tu fomos criados, por uma mãe que se dividia
em dois empregos para conseguir o básico. E imagina que a nossa mãe, assim como tantas outras mães na
mesma situação, vai ser atingida da mesma forma. Vai ter que trabalhar mais, vai demorar mais pra se
aposentar e quando estiver esgotada de tanto trabalhar e adoecer, não vai ter condições minimamente

dignas de acesso à saúde, a não ser que tenha um plano de saúde. E tu sabe, planos de saúde não são
baratos.
Te escrevo agora porque 2018 não vai ser um ano fácil, muito pelo contrário. Te escrevo agora
porque mais do nunca nós temos que pensar que discutir política é sim importante e muito, mas muito,
mas muito necessário. Muita coisa vai acontecer esse ano e nós não podemos fugir, até porque as decisões
que são tomadas lá, tão longe de nós, são tomadas por pessoas que nós elegemos. Vai ser tua primeira
eleição e, por mais que as pessoas repitam, o teu voto não é só mais um. As coisas estão como estão
porque as pessoas acreditam nisso, que o seu voto é mais um, que não precisam se preocupar com quem
vai chegar lá. Ora, como não? Quem votou “sim” para a reforma trabalhista não chegou lá sozinho,
chegou lá pelo voto de um monte de “alguéns”.
Vai ser a tua primeira eleição como votante, e tu tem que se preparar porque as coisas vão ser
difíceis. Mas elas podem ficar ainda piores se o nosso voto for desperdiçado. E elas certamente vão ficar
piores se a gente não se der conta que é importante discutir política. Pode ser chato, pode ser ruim, mas é
necessário. É quando se ignora essas coisas que figuras tenebrosas surgem. Bolsonaro, por exemplo. Ele é
pintado por muita gente – muitos jovens da tua idade, pra piorar – como uma “salvação” para o Brasil. É
uma figura venerada por quem ignora qualquer tipo de discussão sensata e profunda sobre política. Quem
defende esse cara ignora tudo. Ignora aquilo que te falei, que não estamos sozinhos no país. Ignora que no
Brasil existe racismo. Ignora que no Brasil existe machismo. Ignora que no Brasil existe pobreza. Pra essa
gente, é só querer mudar de vida. Ora, mudar de vida como? Se temos que trabalhar e trabalhar e trabalhar
sempre mais pra ganhar sempre a mesma coisa – ou pior, menos, como os professores que fizeram greve,
que trabalharam e não receberam o salário. Não é só querer. O mundo não é um conto de fadas, nós não
somos personagens de novelas da Globo. Nós somos reais, vivemos vidas reais que são definidas por
decisões. Decisões o que? Políticas.
Bolsonaro representa tudo de ruim que existe em nós, brasileiros. Representa a intolerância, a
violência, o preconceito. Todas coisas que nunca vão nos levar a lugar nenhum. As pessoas que votarão
em Bolsonaro acreditam que a redução da maioridade penal vai diminuir a violência – sendo que quanto
mais tu coloca pessoas nos presídios, mais tu fortalece o tráfico de drogas. As pessoas que votarão em
Bolsonaro acreditam que matar bandido vai extinguir a criminalidade – ora, a gente não pode ser burro e
achar que matar bandido vai fazer com que outros bandidos não surjam. A criminalidade não é opção,
ninguém acorda e diz: “hoje eu vou virar bandido”, ela é um caminho que só é “mais fácil” porque esse
país é absurdamente pobre e desigual. As pessoas que votarão em Bolsonaro simplesmente não pensam,
não pensam o Brasil, o porquê do Brasil estar assim, não querem de fato mudar a situação do Brasil. Eles
fingem que não veem a realidade – realidade mesmo, não o que eles acham, não a opinião deles, a
realidade da pobreza, da violência e da desigualdade. As pessoas que votarão em Bolsonaro são as
pessoas que, ao saberem do assalto de uma deputada que defende os direitos humanos, lamentam ao saber
que ela não foi estuprada. Eles são racistas, homofóbicos, machistas e, mesmo que muitos sejam pobres,
têm horror à pobreza, justamente porque ignoram a realidade do país, ignoram a falta de oportunidades,
ignoram a desigualdade, ignoram que no nosso país não é “só querer”.
A questão é: o que podemos esperar de um candidato que é assumidamente homofóbico,
assumidamente racista e assumidamente machista? Cito só essas três coisas – tem tantas outras – só pra ti
ver como uma figura como essa atingiria em cheio a nossa família. Raça, gênero e sexualidade nos
atravessam, assim como atravessam tantas outras famílias. O Brasil não precisa de uma figura como essa.
Percebe mano, como é necessário falar sobre política, ou pelo menos não ignorá-la? Percebe como
é importante pensarmos muito bem os nossos votos? Em 2018 coisas terríveis serão ditas, serão
planejadas, serão feitas. Em 2018 corremos o risco de termos as universidades públicas privatizadas. Isso
significa que a universidade pública, um espaço de discussão e de pesquisa – pesquisas voltadas para,
olha só, a melhoria da vida da população – vai virar uma empresa, vai ser comércio. E é como a relação
entre empregador e empregado, que eu comentei ali em cima: a coisa privada não quer saber de mais nada
além do lucro. A única mudança que as empresas e os empresários pensam e querem é o aumento nos
lucros. Mais um zero na conta final, só isso. Fodam-se as pessoas, fodam-se nós, fodam-se nossos amigos,
fodam-se nossos familiares. Eles não estão nem aí.
Fodam-se. É isso o que os nossos governantes dizem. É isso o que Michel Temer diz. É isso o que
o Sartori diz. É isso o que Bolsonaro, se eleito, vai dizer. Fodam-se os viados, os negros, as mulheres, os
pobres. Fodam-se todos aqueles que só servem para colocá-los lá. 2018 pode ser o primeiro ano do resto
de nossas vidas. Uma vida complicada. Parece exagero, mas se tu sentar e pensar um pouco sobre o que a
política significa para as nossas vidas, tu vai ver que não estou sendo assim, tão exagerado.
É por isso que eu peço que tu lembre sempre: não estamos sozinhos no país. Nada que fizemos é

isolado. Tudo é política. Não estou falando que tu pense só nisso. Mas se discutir a celulite da Anitta e os
jogos do Brasileirão é tão importante, por que não discutir o nosso futuro? Eu sei, eu sei, tudo parece
distante, mas tudo nos afeta. Tudo deve nos preocupar. Precisamos falar sobre isso entre um gol e outro
da seleção na Copa do Mundo. Precisamos gritar com a mesma alegria de uma vitória na final quando nos
livrarmos de figuras tóxicas como Bolsonaro que não vão acrescentar nada de positivo para a nossa
sociedade.
Não estamos sozinhos no país mano, e embora muitas vezes pareça que ninguém se importa com a
gente nós devemos pensar nos outros, pensar na nossa sociedade, na nossa cidade, no nosso bairro, no
nosso estado. O segredo é ter empatia. O Cristiano Ronaldo, que tu tanto gosta, ajuda tanta gente não só
porque é bonzinho, mas porque ele tem a noção de que precisamos nos mexer para fazer com que as
coisas mudem. E não só mudem. Mudar por mudar não adianta. Mudar de verdade, mudar de verdade a
vida das pessoas que precisam ter a vida mudada. O que ele faz, embora não pareça, é política.
Não esquece dessa carta, não esquece desse teu irmão tão preocupado com esse país e com as
pessoas que habitam nele. Somos filhos de nossa mãe e de um país desigual que já mudou muito, mas que
nos últimos tempos tem que tem dado pra trás, como diz a mãe. Precisamos ir em frente, sempre
lembrando que, junto de nós, estão nossos irmãos, mães, amigos e mais um infinito de pessoas assim, tão
simples como nós, que acham que estão sozinhas, mas que tem um potencial único para mudar o mundo
em que vivem. Precisamos construir um futuro melhor para que o passado de nossos filhos e dos filhos de
nossos amigos seja um passado melhor. Não estamos sozinhos, precisamos lembrar disso. Precisamos
pensar nisso, e não há jeito melhor de pensar nisso do que do jeito político.

Com carinho e política, teu mano
Glauber.

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