O bloco daqueles que não são

Rede Social

Aqueles que não são avançam no meio da multidão, a embriagada felicidade do carnaval esparramada sobre seus sorrisos despreocupados. Integram um bloco tão antigo quanto o próprio carnaval, um bloco que resiste apesar das discussões, da época, dos pensamentos. Um bloco que bate o pé e insiste, que retira suas energias da total falta de noção (ou da total falta de vontade de ter noção) da pura e simples existência do outro. Para os foliões do bloco daqueles que não são, é carnaval, portanto não importa nada. Nada, nem o outro.

Eu sempre tive uma preocupação muito grande com a existência das pessoas. Especialmente a existência no plano mais simples e objetivo: o estar ali, o ser ali, existir, respirar, estar presente, que é a coisa mais imediata com a qual nos deparamos quando conhecemos ou simplesmente esbarramos com outra pessoa. Conheci essa pessoa, esbarrei nessa pessoa. Portanto, ela existe. Assim como eu, ela está aqui, ela é carne, é osso.

Com o tempo, afundamos na existência alheia em seu formato mais profundo: as suas subjetividades, as suas dores, as suas alegrias, desejos, desesperos. Enfim, tudo aquilo que, a olho nu, não conseguimos perceber quando apenas conhecemos ou esbarramos em alguém.

Mas é com essa primeira percepção única e simples que eu sempre me preocupo, pois é ela a mais agredida pelas pessoas em sua falta de tato, seja ela proposital ou não. É essa existência que os foliões do bloco daqueles que não são ignoram. Tão notáveis quanto um confete solitário no meio da multidão, o outro, para os integrantes desse bloco, não passa de algo descartável. Uma serpentina jogada para além, algo fácil de manusear, igualmente fácil de descartar.

Aqueles que não são dançam marchinhas de carnaval em cores e corpos que não são seus.  Eles usam cocares na cabeça, usam balões de preservativo em troncos masculinos simulando seios caricatamente grandes, usam traços grosseiramente exagerados em seus rostos de traços finos escurecidos de tinta. Se despem do que são para se vestir daquilo que não são. Nunca totalmente é claro, afinal, aquilo que eles não são é apenas uma fantasia, um adereço, um detalhe, algo feito para divertir e se divertir. Portanto eles permanecem ali, logo abaixo do outro, sempre deixando bem nítida a sua razão: eu estou, mas não sou; eu estou, mas não sou, e acho muito divertido estar, mas não ser; acho muito divertido pular carnaval estando como algo que eu não sou; afinal, que se foda, é carnaval, eu quero apenas me divertir; estando, mas não sendo.

Eu fico me questionando o que passa na cabeça das pessoas do bloco dos que não são. Não durante o momento do pular carnaval, no meio da multidão, no meio de tantos outros. Mas sim no momento íntimo que antecede isso. O momento que foi separado para preparar aquele cocar; aquele momento em cada poro do rosto foi coberto por uma tinta muito escura, imitação esdrúxula de uma pele negra; aquele momento em que se pôs o vestido muito justo e muito curto; o que se passa na cabeça desses foliões nesses momentos? É uma vontade crua de fazer chacota com o corpo de uma mulher? É uma concepção pura da pintura e indumentária indígena como uma fantasia? Um uniforme como o do Batman, ou do Superman ou qualquer outro personagem que não tenha pisado no plano real e físico da existência? É uma necessidade irrefreável de minimizar o negro através da chacota? Pode ser tudo isso e nada disso. Pode ser simples, ou complexo, ou complexamente simples.

De uma forma ou de outra, é muito triste – na mesma medida que é irritante e nojento  – que a vontade de se divertir ou de divertir, leve em conta o outro ao mesmo tempo que o ignora por completo: pegue essa existência já surrada, que por tanto tempo foi chacota e a vista. É simples. Ninguém se importa.

Indígenas sempre foram fantasia, negros sempre foram fantasia, mulheres sempre foram fantasia. Não importa que essas figuras existam, sejam carne, osso e subjetividade, as vista. É carnaval, ninguém se importa. São tantos Fred Flintstone, são tantos stormtrooper, caça-fantasmas, Power Rangers, Trapalhões, Fofões e mais uma infinidade de existências que de fato nunca existiram, ninguém vai se importar com o seu índio, com o seu negro, com a sua mulher.

É só um índio.

É só um negro.

É só uma mulher.

Suas existências imediatas normalmente são minimizadas, invisíveis. Ou mesmo não existem, de tão ignoradas e relativizadas que são. Aqueles que não são sofrem desse mal, voluntaria ou involuntariamente. Não veem, não conhecem, não esbarram. Não percebem que o outro existe, está ali, ali ó, à sua frente, ao seu lado. Aproxime sua mão, toque-o, veja com ele é real, como é pele e carne e osso, e muito mais além disso. Se não consegue fazer isso, se não quer fazer isso, separe um tempo para as chatices desse mundo muito novo das discussões sobre os outros, dispa-se de si e vista o outro consigo mesmo. Toque, sinta sua própria pele, sua própria carne, seus próprios ossos e lembre que, para além disso, há uma vida. Vontades, mágoas, amores, alegrias, melancolias, derrotas, conquistas, esquecimentos, lembranças. Lembre que há uma jornada milenar que vem muito antes de ti, um caminho traçado por outras tantas pessoas que não são você. Faça pra si mesmo a máxima pergunta didática: seria legal se fizessem isso contigo?

Tentar espalhar pelo vazio da sua displicência a ideia de que é de uma nada divertida estupidez, embebida em desrespeito e ignorância se fantasiar de uma etnia, de um gênero, uma classe ou categoria para divertir e se divertir. Afinal, fantasias de carnaval servem para esse fim. Diversão. Acredito na potência do carnaval como espaço de resistência, discursos, lutas (Paraíso da Tuiuti quem o diga), mas uma fantasia solitária, despreocupada, descolada de contexto, pra mim dificilmente pode seja puramente pessoal.

Não é legal se fantasiar de indígena, de negro, de mulher, de árabe, ou seja lá o que você não for. Muito pelo contrário, é bem absurdo. São tempos diferentes, tempos chatos. E ainda bem que são tempos chatos, pois o descuido do bloco daqueles que não são, minimizado pelo clássico “é carnaval”, pode e reforça sim uma série de estereótipos e desgasta ainda mais a imagem de figuras historicamente marginalizadas. Os foliões do bloco daqueles que não são devem lembrar que a violência pode ser também simbólica e pode ferir tanto quanto a violência física. Pois quando se veste o outro, não se mata o outro, não se fere sua pele e seus ossos de imediato. Mas sim se contribui para a pavimentação do estado das coisas, cimentando tudo aquilo que vai além da existência imediata. Mata a sua existência em plenitude. Vestindo o outro como fantasia, vidas diversamente inteiras são encerradas em um único corpo. Sempre apagadas, sempre invisíveis, sempre ridicularizadas.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *