O simbolismo de Lula

Rede Social

Lula começou em São Bernardo a sua jornada na vida sindical e política. Granjeou o seu quinhão de simpatizantes. Alcançou degraus no sindicato. Alinhavou seus méritos. Subiu na política. Fez carreira. Os seus discípulos avolumaram-se. Alcançou o palácio maior. Com a sua verve e o seu encanto fez a sucessão na Presidência. E desceu.

Todo mundo acredita que a política tem lá os seus encantos. E muitos afirmam que ela tem mistérios que vão além da sua própria compreensão. Assim como conduz fiéis ao mais alto dos céus, também joga muitos — nem só os infiéis, mas até mesmo parte dos mais crédulos — ao fogo do inferno. As chamas podem surgiu rápido, de repente, quase do nada, ou do quase nada.

Por causa da política e dentro dela, Lula alcançou o céu. Por sobre as nuvens do mundo, soberanos de todas as partes o idolatravam. Chegou a ser O Cara. Mas a política prega peças. Ou é uma peça. Não só de representação e de glórias vive o homem. Mas de toda a realidade e da massa que lhe cercam o caminho.

Foi assim que a capa assombrada abarcou a vida do herói dos seus idólatras. A mesma política que elevou Lula aos seus píncaros, abateu-o mortal e irremediavelmente e, como um pássaro ferido, veio caindo por entre a galharia e as ramagens do arvoredo da política e da vida. Estava o nosso herói em São Paulo quando o alcançou o tiro fatal.

Fiquei matutando, por que teria ele, para o socorro mais urgente do dramático momento, sido transportado até o ABC. Depois de muito pensar e indagar, surgiu uma luz. (Não sei por que razão coriscou em minha mente o cantar dos cisnes.)

A volta dramática às origens sindicais e políticas foi um gesto de alta simbologia. Quis mostrar a todos os seus seguidores que a lei deve ser cumprida, que ela vale para todos, independente de posição social, econômica ou política. Ele certamente não opôs resistência para se entregar às autoridades que o vieram prender. Ao contrário, envidou os seus esforços para convencer os seus circundantes do dever que o aguardava.

A presença de significativa militância, que ele forjou ao longo da vida de dirigente, foi importante para ele e para o futuro deles. Podia despedir-se de todos ao mesmo tempo. Já cumprira o seu papel. Fechava o seu ciclo de forma apoteótica. Foi lá no ABC que abriu o caminho de sua jornada; para lá preferiu voltar no ocaso de sua trajetória política e sindical.

Foi quase como Jesus, reunindo os seus apóstolos, deixando-lhes os últimos recados e conselhos. Nos braços dos sindicalistas, Lula subiu ao poder. No meio dos seus, ele se despediu. Certamente quis ser justo. Uma questão de simbolismo.

* * * * *

APARTE — De repente, surgiu uma onda de deputados que resolveram adotar o nome de Lula no meio do seu. “Somos todos Lula”. Parece (ou é) uma vassalagem completa. O retrato disso é muito profundo. Significa que todas as ideias do PT são as de Lula, nenhuma mais. Que só o Lula pensa(va). Que todos os demais não têm qualquer luz ou pensamento próprio. Sumiu Lula, sumiram as ideias, sumiram todos. O ridículo também tem vez. Uma vez. Ou muita vez.

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