O almoço nos tempos da Copa

Rede Social

12:00.

Centro de Porto Alegre, Praça da Alfândega. Faz calor. Um pedaço persistente e irritante do verão agarrado ao pobre outono. As pessoas vão pra lá e voltam pra cá, apressadas. Crachás balançando no pescoço, sacolas com quentinhas agarradas por punhos cerrados de fome, barbas e calças e blusas sujas de molho do Subway. Na ponta da Praça, onde a rua Sete de Setembro respira e consegue sair debaixo das pedrinhas laranjas que cobrem o chão a Praça, alguns abandonam a pressa e param. Existe ali, ao meio-dia, um intenso comércio que cheira a almoço, correria e nostalgia. Engana-se quem pensa que naquela região do Centro o dinheiro pulsa na agência da Caixa, ou do Santander ou do Banco do Brasil. Na verdade, os maiores negócios são fechados bem no meio delas, na pequena Banca Maiser. Mas o dinheiro talvez seja, para aqueles negociadores, o menor de todos os detalhes. Ali, no meio do movimento, sob o sol a pino, são os jogadores da Copa gravados em figurinhas que mais importam.

Os negociantes são muitos. Alguns chegam de óculos escuros, terno e gravata, fumando cigarros que pendem do canto de lábios sérios, como que prontos para fazer um negócio muito sigiloso. Outros chegam mais à vontade, rodelas de suor sob as axilas, sacolas do Zaffari penduradas no braço, pochetes agarradas à cintura (pochetes antigas, de couro descascado, da época em que as pochetes eram pura e simplesmente bregas e não envoltas por uma série de supostas utilidades que tentam justificar seu uso indiscriminado). Sob o olhar atento das figuras petrificadas e esparramadas sobre a porta enorme do Santander Cultural, eles se organizam em torno de pequenas mesas de plástico largadas ali justamente pra facilitar o processo. Tiram os montes enormes de figurinhas repetidas dos bolsos com uma mão e com a outra já sacam as folhas forradas de números marcados e desmarcados, não perdem tempo.

Eles são de todas as idades, 90% delas acima dos dezoito anos. Vão do moço que arruma os cabelos freneticamente enquanto confere as figurinhas de outros negociantes até o senhor de boina e óculos escuro tipo moscão, que desfila de mesinha em mesinha com seus chinelos Havaianas, passando pela única criança no meio daquele bando de marmanjo, um guri de no máximo treze anos que gesticula seriamente em cada uma de todas as mesas. Negócio de gente grande.

Eles também são, em sua grande maioria, homens. Mas vez ou outra aparece uma moça ou mesmo uma senhora que, ao pegar a niqueleira como se fosse dar uns trocados para um neto comprar bobagens, enche as mãos de figurinhas e com toda serenidade que não existe no almoço do centro de Porto Alegre, conversa com um, conversa com outro, conversa com outro um e então, sorrindo, faz a troca. Muitos ficam ali por minutos e minutos, como o senhor de óculos escuros tipo moscão e Havaianas, que tranquilamente fica girando e girando ao redor das mesas, fazendo jus aos óculos. Outros, por sua vez, aparecem apressados com os crachás pendendo do pescoço, contando cada minuto daquele resquício de respiro no meio do expediente. Alguns outros passam por ali só pra comprar cigarro mesmo ou utilizar o isqueiro pendurado na porta da banca, seguindo seus rumos cheirando a Camel Double e olhando aquela cena com um ar de maturidade, que, talvez por causa do calor, não possua muito sentido naquele espaço, naquela hora.

E assim aquele pedaço do dia escorre, Thomas Lemar pra lá, Mousa Dembélé pra cá, toma esse Johann Gudmundsson, me dá esse Luis Suárez, tu tem Aleksandr Erokhin? Tenho, tu tem o Neymar? E então aquelas gentes que tem tudo em incomum, encontram naquela ânsia de sentir o álbum mais pesado algo em comum (algo que não seja o desinteresse pelo serviço de transformar VHS em DVD, oferecido a preço muito que justo pela Banca Maiser).

E então eles se olham e conversam, o que é bastante considerável naquele ansioso espaço de transição, rapidez, perigo e fome. Ali, no meio do intervalo de almoço, quando o relógio que é substituído nos pulsos por atilhos parece andar duas vezes mais rápido, a senhora da niqueleira fala com o guri de treze anos, o tio da pochete fala com o rapaz que está sempre arrumando o cabelo, o senhor da Havaianas e óculos tipo moscão continua girando e girando e falando com todos. Assim eles trocam, talvez não só figurinhas, mas também um pouco de si, já que aquela seja talvez uma das ações mais genuínas dos seus dias. Até porque o álbum de figurinhas ocupa um espaço de destaque no panteão das coisas genuínas das nossas vidas. É um fragmento do passado, lambuzado pelo protetor solar da nostalgia, carregado da leveza dos dias há muito passados, nos quais não se fazia tanto calor no outono. Naquele recorte de movimento, as pessoas trazem gravadas nas suas figurinhas repetidas os seus hábitos mais singelos e nem por isso menos importantes. Completar um álbum de figurinhas: são poucas as coisas que podem ser ao mesmo tempo tão genuínas e tão potentes a ponto de fazer com que as pessoas ocupem um espaço, que as faça viver a rua, que as faça de fato estar na rua.

Ou então, talvez, seja de fato apenas uma troca de figurinhas, só mais um movimento banal no universo de movimentos banais das vinte e quatro horas do dia e dos sete dias da semana do Centro de Porto Alegre. Com nenhuma motivação que ultrapasse a película de normalidade dos dias e que eu, do alto da minha observação de longe, fascinado pelas coisas banais da rua, acabo por idealizar. São 12:30 quando eu vou pro meu almoço, a barriga roncando, pensando que o que aquilo significa (se é que significa algo) só a rua e a sensação de cada uma daquelas pessoas podem dizer. É a última figurinha do álbum, talvez aquela que nunca iremos encontrar.

 

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