Barulho

Rede Social

 

This is America. Don’t catch you slippin’ up. Look at how i’m living now. Police be trippin now. Yeah, this is America. Guns in my area. I got the strap. I gott car…

A voz de Childish se apagou de repente, como num acabar de bateria. Antes fosse uma bateria esvaziada. Se fosse o caso, bastava eu me pendurar em alguma tomada e minutos depois já estaria ouvindo “This is America” de novo. Que música!

Não era a bateria. Os fones de ouvido já não estavam no seu melhor desempenho, ouvi-los já era a crônica de uma morte anunciada. Foram-se no exato momento em que atravessei a esquina, em um dos melhores trechos da música. Fui obrigado a interromper a minha muito bem executada performance mental – poucas coisas são mais anticlimáticas que um fone de ouvido que emudece no momento mais gostoso de uma música.

Revirei os olhos e os tirei, não tendo nem meio milésimo para pensar de onde eu tiraria dinheiro para comprar um novo quando a enxurrada de barulho invadiu os meus ouvidos, de todos os lados, desordenadamente.

Particularmente, a visão sempre foi a minha principal guia pelos caminhos asfaltados da urbe. O olfato, que costuma me assaltar aqui e ali, na boca de um esgoto, no entorno de uma carrocinha de pão de queijo, na faixada de uma lavanderia ou em todos os quatro lados do Mercado Público, está sempre ao redor mas nunca me serviu como indicador principal de um trajeto, como um mapa sensorial da rua. A mesma coisa o paladar, que no fim das contas acaba sendo só uma participação especial nos episódios dessa história de andar pela rua, aparecendo aqui e ali, quando a barriga encosta na coluna, depois de um dia todo movido apenas pelo almoço. A audição acaba sendo essa coadjuvante ignorada que tenta, em vão, chamar a atenção para a sua personagem que tem tanto para mostrar.

Você já experimentou ouvir quando está na rua? É uma experiência caoticamente agradável. Uma sinfonia de barulhos altos, baixos e médios, graves e agudos, metálicos e emborrachados, irritantes, intermitentes, distantes, adjacentes, onipresentes. Não há pedaço da rua que não esteja ocupado por um ruído ou estrondo. Uma cacofonia diária marcando o compasso dos dias.

Eu estava indo trabalhar quando meus ouvidos foram afogados pelo barulho do trânsito. É a primeira coisa que se nota quando ouvimos a rua: o som dos veículos. Não importa se estamos atravessando a rua, ou no 21º andar de um prédio, o som dos carros, ônibus, caminhões, lotações, motos e ambulâncias é aquele som do tipo mosquito, que voa ininterruptamente no fundo dos dias. Um verdadeiro regime totalitário sonoro, móvel sobre rodas.

Mas é curioso como os outros sons insurgem-se contra esse regime estabelecido: numa rebeldia cacofônica, à medida que caminhamos na direção de nossos compromissos ordinários, encontramos, nos colidimos, somos abraçados e interpelados pelo barulho de todas as coisas. E está aí uma das coisas mais curiosas e divertidas no ouvir a rua: identificar, naquela algazarra, o som de cada coisa que habita o background. Passamos por eles como se estivéssemos na esteira de uma linha de produção: eles vêm, entram em um ouvido, saem pelo outro e se vão, engolidos pelos outros tantos sons, incontáveis e diariamente infinitos.

Utilizando o meu trajeto como exemplo: sob o viaduto Loureiro da Silva, o som da afiação das chaves reverberava looooooooooongamente da barraquinha minúscula do chaveiro, se debatendo entre a rua, as lâmpadas sujas do viaduto e as pessoas que esperavam o ônibus para a Zona Sul; na Salgado Filho, o preço das frutas que colorem cada uma de suas esquinas, anunciado pelas gentes simples que ganham a vida a céu aberto, escalava o som do final da linha dos ônibus da Zona Leste; no meio da calçada, num nível mais abaixo do nível costumeiro da rotina, o raspar metálico do homem que arrancava com uma espátula alguns adesivos do Toniolo anunciava uma revolta contida, contra tudo e contra todos; sob a pesada imponência do Sulacap, o idioma dos imigrantes senegaleses e haitianos se debatia com o português dos outros que vendem frutas ou cigarros de origem duvidosa; mais à frente, o raspar sutil das vassouras dos garis, limpava o dia e  do vórtice quase que furioso da Esquina Democrática, escapavam as muitas vozes que soam iguais oferecendo fotos 3×4. Foto na hora! Era segunda-feira, aquele dia em que eu ouvi a rua.

Na terça eu já estava fatalmente mais interessado naqueles barulhos que, a uma primeira ouvida, soavam desorganizados, mas que com atenção, soavam nítidos, 320 kbps de alta qualidade. Caminhando, eu ia catalogando o espaço que circulo todo dia, através de cada timbre, cada nota, cada riscar, raspar, bater, estalar. Quando o meio da semana chegou, eu já estava abrindo os ouvidos ao mesmo tempo que abria os olhos, recebendo do mundo o seu bom dia sonora e caoticamente organizado. E digo organizado porque ele cumpre horários à risca. A impressão que tenho é que cada momento do dia tem seu som oportuno, que não se encaixa, que se sente estrangeiro em outros momentos do dia. Por exemplo: o discreto esfregar da escova do engraxate é um som discreto demais para não ressoar durante a manhã, bem como o som estacionado dos motores das lotações no final da linha na Sete de Setembro que parece perdido, não sabendo para onde ir, quando não ocupa nossos ouvidos ao cair da noite, no fim dos expedientes alheios. Já as vozes idosas que sacam, pagam e apostam não se debatem pelas paredes das minúsculas lotéricas durante a tarde ou à noite, ao passo que a explosão de garrafas, sacolas, caixas e restos em geral da coleta de lixo, acompanhada pelo api-pi-pi-pi-pito de sinalização, não costumam, pelo menos no Centro, encobrir nossos ouvidos e narizes durante a tarde ou a manhã.

Então a semana foi chegando ao fim, e a noite de quinta-feira já caía com a sinfonia do assar febril dos churrasquinhos com cheiro de final de semana, e com o batucar compassado dos instrumentos do grupo de pagode que tocava na Esquina do Zaire sob o olhar animado de muitas pessoas negras. É quase sexta-feira, vamos parar um pouco. Muitos não pararam e avançaram no barulho do dia recém escurecido, um barulho mergulhado numa indecisão juvenil, não sabendo se diminuía o ritmo ou se o acelerava mais ainda, com o som dos veículos naquele desespero enlouquecido – precisando voltar pra casa, precisando acabar a rotina – ao mesmo tempo que muitas outras coisas iam silenciando – as vozes não anunciavam mais as frutas, ou relógios, ou calças de moletom, dando espaço para o ruído discreto em torno das coisas que vão sendo recolhidas e que, de repente, eram encobertas  pelo som da lataria cansada dos ônibus lotados de gente também cansada. $4,30, Júnior? É sério isso?

Então chegou a sexta-feira, o dia em que tudo fica com mais vigor, até o medonho e poluído som do bater das asas das pombas da Praça Montevidéu e a algazarra das caturritas que habitam as palmeiras da Oswaldo Aranha, deslocadas da realidade metálica dos sons do Centro. Os helicópteros da Brigada batiam as hélices sobre os prédios, fiscalizando as vidas; as pessoas conversavam entre si, com seus telefones, consigo mesmas, retalhos de vidas e conflitos jogados pelo ar; a britadeira metralhava o dia, marcando o compasso da sexta e, de repente, sobre tudo, cortando a rua, a preferencial, o sinal, o dia, uma ambulância acompanhada pela sua sirene, colocando todos num estado de alerta, prendendo a respiração da cidade. Ouvi, sem ouvir – eis um som tão ajustado à nossa existência que não precisamos ouvi-lo para saber como ele é – pois os cálculos feitos na noite anterior deram o aval para aquisição um novo fone de ouvido. Àquela altura, eu só sábia ouvir e cantarolar Childish Gambino novamente. You just a black man in this world. You just a barcode. You just a black man in this world. Drivin’ expensive foreigns…

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