EMERGÊNCIA! PRECISA-SE DE INTELIGÊNCIA EMOCIONAL

 

Durante muitos anos falar sobre as emoções dentro das organizações causou certa estranheza, pois os profissionais que atuavam em cargos de liderança focavam essencialmente em aspectos ligados ao resultado, com uma visão extremamente mecanicista; herança oriunda da época em que a revolução industrial transformou a vida das comunidades.

Por volta dos anos 80, estudos realizados sobre as relações humanas, como o realizado pelos Psicólogos Americano e Australiano, Abrahan Maslow e Elton Mayo[1], respectivamente, demonstraram a importância em considerar a influência das necessidades e expectativas do ser humano diretamente ligadas a motivação.

Na atualidade, as pesquisas em diversas áreas são inovadoras, não distante desta realidade, a área da psicologia e neurologia evoluíram bastante na busca de respostas as questões ligadas as emoções. Hoje já existem exames de imagem do cérebro em funcionamento, onde são identificadas as áreas que atuam em determinadas situações, incluindo às relacionadas a questões emocionais.

Grande pesquisador desta área é o PhD Antônio Damásio, autor de livros[2] que apresentam explicações sobre a capacidade de funcionamento de nosso cérebro e a relação deste funcionamento vinculados as emoções. Em suas pesquisas, Damásio evidencia que as emoções e os sentimentos não só podem ser abordados, medidos, explicados e compreendidos cientificamente, como também podem ser distinguidos neurobiologicamente.

Outro escritor que vale a pena buscar suas produções é o Neurologista e Químico Oliver Sacks[3], onde em uma de suas produções traz uma ótima abordagem sobre a existência de nós mesmos; sobre o quão relevante são as interações que realizamos com os outros para nos construirmos como seres

[1] Muitos outros Teóricos compõem o grupo de profissionais que estudaram a respeito das relações humanas, mas a ideia aqui não é apresentar todos, pois o presente artigo ficaria extenso demais.

[2] O Erro de Descartes; E o Cérebro criou o homem; O Livro da consciência; entre outros e muitos artigos

[3] Vendo Vozes; entre outros – Um antropólogo em marte; Tempo de despertar; O olhar da mente, …

comunicativos e expressivos.

Em 1986 o psicólogo, escritor e PhD da Universidade de Harvard, nos Estados Unidos, Daniel Goleman publicou o livro Inteligência Emocional. Livro que apresenta uma compreensão simplificada sobre o funcionamento neurológico e as emoções.

O desenvolvimento desta chamada Teoria da Inteligência Emocional se mostrou um excelente modelo para a educação para o aprendizado social e emocional. Goleman com seu estudo confirmou, através do método de modelagem de competências, o impacto que a capacidade emocional pode causar sobre o desenvolvimento de competências. Este método permitiu uma análise sistêmica das forças específicas que fazem com que alguém mostre um desempenho excepcional em uma determinada atividade.

Em sua análise descobriu que a grande maioria das competências que distinguem os melhores líderes estão baseadas na Inteligência Emocional e não no QI. O Quociente Emocional (QE), outro termo utilizado para inteligência emocional, determina nosso potencial para aprender os fundamentos do autodomínio, e essa competência mostra o quanto dominamos desse potencial, traduzindo em capacidades profissionais.

Apesar deste reconhecimento sobre as habilidades emocionais que preconizam o bom relacionamento e a competência de relacionamento e interação entre os indivíduos, percebe-se que estamos em uma via de mão dupla, pois a sociedade tem passado por uma transformação cultural, política, econômica e social em razão da tecnologia que avançou muito nos últimos anos. Estas mudanças não são novidade, porém o mundo nunca mudou tão rápido como nos últimos vinte anos, devido a era digital que acelerou muito este processo.

Nossos jovens, extremamente atualizados e inteirados na utilização das tecnologias vigentes, os quais serão os futuros empreendedores e trabalhadores, não estão sendo estimulados ao desenvolvimento desta competência, a qual afirmo ser a base estrutural para um convívio social e profissional de sucesso.

Através da interação da tecnologia, cada vez menos percebe-se a exclusão do indivíduo de uma interação social como em outras épocas. Atividades como a de fazer compras sem sair de casa; ir ao cinema; ir às aulas; ir a uma academia; entre outras, estão cada vez mais sendo excluídas, o que proporciona o não desenvolvimento de uma capacidade imprescindível ao ser humano: a de lidar com emoções. A de reconhecer os sentimentos gerados pelos estímulos que deveriam estar expostos, de poder experimentar as suas reações e as dos outros frente aos estímulos, para, desta forma poder saber exercer a organização neurológica necessária para saber discernir o certo do errado; o que posso e o que não posso. Mantendo assim a boa pratica da ética e a moral tanto no convivo social como no profissional.

Talvez isso explique determinadas circunstâncias vivenciadas na sociedade de hoje: o aumento do número de jovens que apresentam depressão; a inabilidade em saber lidar com situações de pressão; a despreocupação de compreender as consequências futuras de seus atos de hoje; a incompreensão sobre as limitações determinadas por regras (tanto as de convívio social como as profissionais); a falta de tolerância sobre o tempo de esperar …

Não pretendo aqui fazer alusão nem tão pouco estratificar as gerações conforme são referenciadas: geração X, Y, Z, Mellenials. Mas temos que compreender que independentemente da geração que façamos parte, buscar esta competência, ou aprimorá-la (para os que já buscam esta consciência) é de vital importância aos indivíduos. Sem esta competência será cada vez mais difícil estabelecer relações agradáveis e prazerosas; e como consequência, acredito, poderemos regredir em nossa evolução como indivíduos.

Freud já enfatizava que nós nos construímos na interação com os outros. Piaget também, quando desenvolveu a teoria construtivista. O que isto significa: DEVEMOS INTERAGIR COM OS INDIVÍDUOS E ENTRE OS INDIVÍDUOS.

Não vejo perdida, ainda, a possibilidade de estimular a inteligência emocional em crianças[1] e jovens que frequentam atividades escolares (ensino fundamental e ensino médio). Na fase do desenvolvimento das crianças do ensino fundamental é que encontramos o momento crucial, pois as mesmas estão aprendendo, de fato, a lidar com sensações, sentimentos e emoções, os quais muitas vezes não compreendem ainda. Nesta fase, neurologicamente a criança está em plena ampliação da sua rede de neurônios, principalmente a área do cérebro responsável pela organização e compreensão das emoções.

 

“A educação clássica muito raramente ensina aos estudantes as ferramentas básicas para que aprendam, desde a mais tenra infância, a habilidade de filtrar estímulos estressantes, proteger a emoção, gerenciar seus pensamentos, pensar antes de reagir, ser resiliente, e desse modo, alicerçar o Eu como gestor psíquico e aliviar, pelo menos um pouco, os graves sintomas da Síndrome do Pensamento Acelerado.” (CURY, 2014, p.21)

 

Para tanto, é importante que familiares e orientadores escolares tenham conhecimento sobre o assunto, bem como acreditem que a capacidade emocional das crianças e dos jovens pode e deve ser estimulada.

Incluo aqui os jovens (pré-adolescentes, adolescentes e jovens adultos), pois através de estudos de neurologistas, psicólogos e psiquiatras[2], foi comprovado que a estrutura cerebral do ser humano está plenamente desenvolvida (madura) a partir dos vinte e seis anos de idade. Ou seja, temos um bom período, para estimularmos a inteligência emocional das novas gerações de hoje, bem como as vindouras.

Vamos buscar minimizar a utilização de eletro-eletrônicos junto as crianças e aos jovens. Vamos interagir mais. Vamos trocar mais experiências com outrora. Nossos pais e avós, quando crianças provavelmente foram expostos a mais estímulos que lhes proporcionaram uma maior habilidade emocional. Não pretendo aqui, fazer alusão de que foi a melhor educação, no entanto, os jovens adultos de hoje apresentam mais flexibilidade diante de situações de pressão, por exemplo. Sabemos que, antigamente, a educação era mais coercitiva. Fundamentada na imposição de limites, às crianças, de forma agressiva, na grande maioria das vezes. Mas também não vislumbramos os reais benefícios, no futuro, da educação demasiadamente permissiva, sem muitas limitações e orientações necessárias para participar e praticar a cidadania, a qual sustenta-se em um bom desenvolvimento emocional.

Percebe-se hoje, que os adultos passam constantemente correndo atrás do tempo, tendo que driblar inúmeras questões de seu cotidiano; o que, para muitos a impressão é de não estar conseguindo dar conta das atividades. E frente a esta constatação, compreendem que precisam buscar mais conhecimento e compreensão de quem são, bem como de como pode se capacitar para utilizar seu potencial máximo; conquistando o equilíbrio das necessidades de hoje e o sucesso do amanhã.

Profissionais hoje buscam capacitar-se frente a este quesito: Inteligência Emocional. Assim procuram cursos e/ou processos de Self Coach. Mas, independentemente disto, existem elementos (conforme o Livro de Goleman) fundamentais e básicos para entender o que sustenta a Inteligência Emocional. Os quais são: autoconsciência, autogestão, consciência social e gerenciamento de relacionamentos

AUTOCONSCIÊNCIA – significa ter uma capacidade de se conhecer e compreender de forma profunda as próprias emoções, forças, fraquezas, necessidades e impulsos. As pessoas que possuem essa capacidade reconhecem como seus sentimentos afetam: a elas, as outras pessoas e ao seu desempenho no ambiente, seja ele no âmbito social ou profissional.

 

“A clareza com que sentem suas emoções pode reforçar outros traços de suas personalidades: são autônomas e conscientes de seus próprios limites, gozam de boa saúde psicológica e tendem a ter uma perspectiva positiva sobre a vida. Quando entram num estado de espírito negativo, não ficam ruminando nem ficam obcecadas com isso e podem sair dele mais rápido. Em suma, a vigilância as ajuda a administrar suas emoções”. (GOLEMAN, 2012, p.72)

 

AUTOGESTÃO E AUTOCONTROLE – a competência da autogestão está relacionada diretamente ao gerenciamento de emoções, que por consequência estabelece a motivação necessária ao indivíduo; concentração para atingir metas, adaptabilidade e iniciativa. O autocontrole tem relação com os impulsos biológicos que dirigem nossas emoções. Eliminar estes impulsos é impossível, porém podemos moldá-los para que não interfiram de forma negativa nas nossas ações cotidianas.

O córtex pré-frontal é onde ocorre a atividade de autogestão, local do autocontrole cognitivo. Nesta área do córtex é que ocorre a regulação da atenção; da tomada de decisões; da ação voluntária; do raciocínio e da flexibilidade na resposta. Outra parte, no cérebro que atua nas questões emocionais é a amígdala. É ela que dispara os sentimentos: da angústia; da raiva; do impulso; e do medo. Funciona como defensor frente ao que percebe como ameaça. A informação que recebemos do ambiente externo chega primeiro na amígdala, que molda a forma de perceber o estímulo, e consequentemente, dispara uma reação. Esta reação primária é estabelecida pela amigdala, mas depois que este estimulo chega na região do córtex pré-frontal, é que temos a capacidade pensar de forma racional.

CONSCIÊNCIA SOCIAL – a consciência social está relacionada com a capacidade de uma pessoa lidar com as outras. Não é apenas uma questão de cordialidade, mas também está vinculada ao propósito de buscar nas outras pessoas a direção que você deseja. Para Goleman (2015), as pessoas com esta habilidade compreendem e partem do pressuposto de que não fazemos nada sozinhos, principalmente, feitos vultuosos e relevantes.

GERENCIAMENTO DE RELACIONAMENTO – O gerenciamento de relacionamento é a capacidade de usar a consciência de suas emoções para influenciar as emoções dos outros, gerando assim um impacto positivo nas outras pessoas.

Carnegie (2012) observa que quando tratarmos com pessoas, devemos nos lembrar que não estamos tratando com criaturas lógicas, mas sim com criaturas emotivas, suscetíveis às observações norteadas pelo orgulho e pela vaidade.

Ter bons relacionamentos impulsiona as pessoas para o sucesso e a sinergia é uma grande ferramenta nas relações.

 

“Na natureza a sinergia está em toda a parte. Se você colocar duas plantas lado a lado, as raízes se misturam e melhoram a qualidade do solo, de modo que as duas plantas crescem melhor do que se estivessem separadas. Se você coloca duas peças de madeira juntas elas aguentarão muito mais do que o peso suportado por cada uma individualmente.” (Covey, 2017, p.322).

 

A sinergia possui grande importância para o desenvolvimento dos indivíduos para sua formação como cidadãos. E consequentemente, para as relações de trabalho. Segundo Maxwell (2015), é importante relacionar-se bem com as pessoas ao invés de estar ou tentar se colocar em prioridade. Ao se ter o objetivo de acessar os outros para construir relacionamentos com engajamento, a realização será estabelecida com sucesso.

 

Então! Conseguem perceber a relevância do desenvolvimento da Inteligência Emocional?

Acredita que ela seja importante para o desenvolvimento das gerações; seja as atuais ou as vindouras?

Ainda temos tempo para praticar e internalizar as bases da inteligência emocional para o desenvolvimento do bom relacionamento como cidadãos, para estabelecer a melhoria das relações interpessoais desde sempre. Não desconsiderando para tanto a consequente contribuição desta habilidade na preservação da ética e da moral no convivo social e empresarial.

 

 

Bibliografia

 

CARNEGIE, Dale. Como fazer amigos e influenciar pessoas: o guia clássico e definitivo para relacionar-se com as pessoas. São Paulo: Companhia Editora Nacional, 2012.

 

COVEY, Stephen R.. Os 7 hábitos das pessoas altamente eficazes. Rio de Janeiro: Best Seller, 2017.

 

CURY, Augusto. Gestão da Emoção: técnicas de coaching emocional para gerenciar a ansiedade, melhorar o desempenho pessoal e profissional e conquistar uma mente livre e criativa. São Paulo: Saraiva, 2015.

 

GOLEMAN, Daniel. Liderança: e inteligência emocional na formação de um líder de sucesso. Rio de Janeiro: Objetiva, 2015.

 

GOLEMAN, Daniel. O cérebro e a inteligência emocional: novas perspectivas. Rio de Janeiro: Objetiva, 2012.

 

MAXWELL, John C. Líder 360°: como desenvolver seu poder de influência a partir de qualquer ponto da estrutura corporativa. Rio de Janeiro: Vida Melhor, 2015.

[1] Aqui indico o livro: Inteligência Emocional – Como educar seus filhos.

[2] Conforme Psicóloga Luciana Tisser apresentou em sua palestra: “Emoções, sentimentos e comportamentos na infância e na adolescência” no Colégio Americano, dia 09 de junho de 2018.

 

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