“Não”

Ele pegou a democracia pela mão e a conduziu em frente. Mal sabia ela que os seus passos na verdade a levavam para trás, para uma mira apontada na direção de sua cabeça.

 

Não. Sem precisar fazer muito esforço, é possível constatar que o “não” foi uma das palavras de ordem na história do Brasil. Não! Disse o homem europeu, das terras de Portugal, aos povos indígenas que as terras daqui habitavam. Negavam aos donos naturais deste solo o seu direito. Não.

 

Não! Disseram aos africanos, os tantos africanos, que foram atravessados Atlântico adentro, enquanto bradavam que eram humanos, que eram vidas envolvidas em peles pretas, que não podiam ser acorrentadas, açoitadas, assassinadas. Não.

 

Não! Disseram às mulheres por tanto e tanto tempo. Não vote, não fale, não pense, não foda. Não!

 

Também sempre disseram não aos pobres. Três letras rascantes, uma sílaba hermeticamente fechada, uma certeza nacional. A negação sempre ressoou na vida daqueles que não tinham em suas existências nenhum dos pré-requisitos para ouvir os “Sim”. O privilegiado sim, o suave sim.

 

Acabou que essa gente acabou por tomar o não para si. Esses indígenas, esses negros, essas mulheres, esses pobres, essas gentes sujas e desajustadas, de tanto construir suas jornadas pessoais sobre esse não, hoje rebatem com um não ressignificado.

 

Dizemos não. Como um pé na porta, como uma máscara que protege do gás lacrimogêneo da Brigada Militar, dizemos não. Ele não.

 

Analisando por esse viés de três letras e uma sílaba, as eleições de 2018 serão uma batalha de nãos. De um lado, o discurso do não que demarca um território, que não deixa rastros de dúvidas. Existimos, estamos aqui. Somos pobres, somos negros, mulheres, indígenas, gays, lésbicas, bissexuais, transexuais e diariamente dizemos não às violências que nos atacam, que nos matam.

 

Do outro lado, o discurso do não em forma de ataque. Calcado em ignorância e amigo da exclusão, do apagamento. Não existam vocês! Pobres, pretos, putos, putas, índios, todos vocês, criados por mães e avós, desajustados que desajustam a nossa ilustre Pátria.

 

Há alguns meses eu veria com olhos tortos esse maniqueísmo de o “não deles” e “não nosso”. Um lado e outro lado. Mas as coisas nas terras de cá têm seguido por um caminho sombrio. É difícil misturar, é difícil integrar. Pelo menos para mim. Não me desce pela garganta a ideia de que alguém que apoia Jair Bolsonaro possa estar amistosamente perto de mim. Não sei lidar com a companhia de quem quer me ver eliminado.

 

E acredito que esteja nesse aspecto – a possibilidade de tornar público o não a tudo que é “desajustado” – um dos principais pilares dos posicionamentos favoráveis ao discurso dele. Na boca de Jair Bolsonaro, milhares de brasileiros encontraram guarida. Um lugar aconchegante, de onde poderiam externar e destilar todo o seu ódio e o seu nojo. Hoje, eles ignoram os dedos apontados quando dizem que odeiam os gays e as lésbicas; ao dizer que não querem dividir os seus espaços com os negros; ao afirmar que o lugar das mulheres era sob a sombra frágil dos testículos dos homens de bem. Hoje, esses discursos não ficam presos entre as quatro paredes de sua privacidade, dos grupos de amigos, dos sussurros e dos pensamentos. Agora, eles veem uma oportunidade de institucionalizar esse não. É um não entalado há tempos na garganta.

 

Mas também esse é um não suspirado, um reflexo a um terrível estado político, econômico e social das coisas. O medo dorme e acorda com as pessoas e, nesses dias tão violentos é mais fácil bradar não junto com um candidato que dá soluções mágicas (e vazias) para os nossos tantos problemas do que optar por negar esse discurso, o que demanda uma outra visão de mundo e o trabalho de construção baseada nessa nova visão. A ignorância é um projeto, no final das contas.

 

Por essa razões, e tantas outras, é preciso gritar mais alto. Não!

 

Depois de tanto tempo da chegada do homem branco vindo de Portugal, nós dizemos não a um plano econômico que assassina a vida dos pobres, já que a maior preocupação de Jair Bolsonaro parece ser a de que para abrir uma empresa no Brasil é muito difícil, ignorando (assim como muitos pobres do seu eleitorado) que boa parte do país está mais preocupada em sobreviver do que montar uma empresa; não a um “plano” de educação que emburrece nossas crianças e nosso futuro, numa caçada cega às tantas lições de Paulo Freire; não a um “plano” que nos entrega aos interesses privados que, como o próprio nome já diz, são privados, ignorando toda e qualquer coisa que não dê lucro; não a um “plano” de segurança estúpido o suficiente a ponto de acreditar que armar uma população que aprende a odiar desde o berço (e se não o faz no berço, aprende então no palanque, com a ajuda de um sorridente e imbecil Jair Bolsonaro) vá diminuir a violência.

 

O nosso não, é contra um projeto de Brasil partido social e economicamente. É contra um projeto de Brasil que passa a mão na cabeça de regimes totalitários, assassinos, estupradores e torturadores por essência. E não só afaga, como justifica, relativiza e (o pior de tudo) se excita com um Estado criminoso. Os regimes totalitários são tempos de não. Não, não e não. É para isso que eles existem.

 

Ele pegou a democracia pela mão e a conduziu em frente. Mal ela sabia que os seus passos na verdade a levavam para trás, para uma mira apontada na direção de sua cabeça.

 

Não. Ele não.

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